Disse Nietzsche que “há artistas que nascem póstumos”.
Referia-se o orgulhoso filósofo àqueles que não foram compreendidos em vida,
aqueles cuja arte só foi consagrada e admirada quando a morte já os tinha levado para os seus enigmáticos domínios.
Mas se há artistas que só triunfam e se revelam às gerações assombradas, outros há que vencem quando a própria vida para eles ainda não se revelou totalmente.
São aqueles que trazem os signos da precocidade, aqueles que nasceram sob uma alvorada prematura. .. São as revelações que impressionam...
Entre nós, o fenómeno é raro — e poucas vezes se tem dado tam completo, como agora com Maria Alice Ferreira, essa jovem de 15 anos, apenas, que em breves dias vai ser apresentada em público pela eminente «virtuose" do violoncelo Guilhermina Suggia.
Esta revelação que nos surge quási divina de que Augusto Suggia e mais tarde sua filha Guilhermina Suggia cultivaram a vocação —bem acima do vulgar — vai decerto impressionar vivamente os que tiverem a suprema ventura de assistir aos concertos que nos próximos dias 4 e 5 se vão realizar no Teatro Rivoli.
Pouquíssimas têm sido as pessoas às quais tem sido dado o prazer espiritual de escutar as execuções da jovem mas já talentosa artista.
Maria Alice Ferreira, tem o condão feiticeiro de realizar o conceito de Schopenhauer: — «A música não exprime as formas do mundo visível, mas sim a sua essência metafísica».
Pela música mergulhamos na alma infinita do universo.
A arte musical cultivada com saber profundo e requintado gosto, é a única que se deva aos ilimitados horizontes, deixando à nossa imaginação a máxima liberdade, criando na fantasia um mundo novo. Numa de encantamento a nossa alma mergulha num oceano de luz, extasia-se com a música.
Maria Alice Ferreira obriga-nos nas suas primorosas execuções a uma meditação recolhida e religiosa, quando os seus lindos dedos ágeis revelam as maiores manifestações de Arte musical nos trechos incomparáveis de Saint-Saëns, Max Bruch e David Popper, tanto acima do trivial que são melhor, sonhos idealistas dum Deus, que inspiradas criações dum homem.
Segura da técnica a novel, mas já talentosa artista, tira do violoncelo efeitos de colorido, em sonoridades suaves, ou fulgurantes de vigor, numa integração de dificuldades vencidas pelo seu temperamento de artista, artista já por intuição, já conscienciosa, que estudou para saber e superiormente interpreta.
Dir-se-ía que toda a sua alma, a alma que se abriga no envólucro gracil e insinuante do seu físico, passa para as cordas que os seus dedos pisam com uma intenção justa e sentida, que nos leva consigo em sensações máximas de espiritualidade.
No meio musical o nome de Maria Alice Ferreira é quási que desconhecido. Após o concerto do próximo dia 4, em que ela se vai apresentar como solista da Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, o número dos seus admiradores vai decerto ser o dos que a ele vão assistir.
A seu pai, o grande industrial Delfim Ferreira, as nossas mais sinceras saudações, que antecipadas, certas do grande triunfo e dos aplausos que sua filha vai receber, bem como sua professora, a eminente artista Guilhermina Suggia.
A glória dos alunos é a maior glorificação dos Mestres.
De “O Norte Desportivo” de 2-V-1937
(Cedido por Luís Sá Pessoa)