Já uma vez falamos, nestas mesmas colunas, duma menina, Maria Alice Ferreira, que vivamente nos impressionara a tocar violoncelo. Foi há seis ou sete anos. Criança ainda, à roda dos dez anos, aluna aplicadíssima de Augusto Suggia, enlevara-nos na magia da execução, na segurança da técnica, na elegância, duma simpática espontaneidade, da arcada.
O tempo passou — e a criança de ontem é hoje uma menina de 15 anos, quási uma senhora. Morreu também, a vaticinar-lhe um belo futuro artístico, o velho Suggia. E Maria Alice Ferreira, alimentada a vocação pelos pais que a estremecem — a Sr.a D. Sílvia Gomes Ferreira e o industrial Sr. Delfim Ferreira — foi confiada aos cuidados e à superior direcção artística da professora Guilhermina Suggia, uma das nossas poucas e autênticas glórias nacionais.
E, desde então, os progressos de Maria Alice Ferreira tornaram-se evidentes, notórios, confirmando, absolutamente, o juízo de Augusto Suggia.
A grande artista que nos apresentou Madalena Moreira de Sá e Costa e, pouco depois, o simpático Aubrey Rainier — um verdadeiro prodígio — não perde o seu tempo, preciosíssimo, em lições estéreis. Selecciona inteligentemente os seus alunos — que, de resto, só lhe batem à porta quando se sentem impulsionados pela chama interior, a vis criadora. É o caso claro, concreto, de Maria Alice Ferreira — que deve à sua professora a consciência da sua arte, o milagre, o prodígio das suas mãos. E não é difícil, sabendo-se que a graciosa menina foi preparada por tam ilustre professora, augurar-lhe os maiores triunfos.
A intuição artística, sendo muito, não é tudo. Não se improvisa a educação do gosto, não se moldam os temperamentos, literários ou artísticos, dum dia para o outro. A missão difícil de modelar, de façonner uma alma ou um temperamento, cabe, evidentemente, ao professor — à professora. Trata-se duma pedagogia especial — que, afectando directamente o cérebro, não pode alhear-se da alma.
E Guilhermina Suggia, que tem consigo a responsabilidade dum grande e belo nome, dum nome que, para vergonha nossa, é mais conhecido no estranjeiro, mormente nos mais exigentes centros musicaisdo , que em Portugal, Guilhermina Suggia não ousaria apresentar em público a sua aluna —se não estivesse de ante-mão segura do êxito. Maria Alice Ferreira, que deve constituir um legítimo motivo de orgulho para seus pais, submetida a uma prova dura, difícil - não fraquejou. Venceu — em toda a linha. E o júbilo da sua professora — diríamos melhor da sua orientadora — traduziu bem, expressivamente, a certeza magnífica dessa vitória.
De “JORNAL DE NOTÍCIAS” de 22-IV-1937
(Cedido por Luís Sá Pessoa)
Publicado por vm em abril 15, 2008 11:07 AM