
É mais um salão de concertos do que theatro. Há pouco mais de um anno, uma commissão de senhoras, de que faziam parte a Condessa do Sabugosa e a ministra d’Austria, deram ali uma brilhante festa de caridade, com quadros vivos e outras partes de espectáculo, mandaram fazer proscénio e ligeiro scenario pelo pintor Eduardo Machado. O panno de bocca, emprestado por D. Alice Munró Anjos, era de velludo. O inspector do Conservatório adquiriu tudo, menos o panno, que substituiu por outro que mandou fazer, e é desde então que ali se representa quando é necessário.
Este salão foi construído por iniciativa e grandes esforços de Luiz Augusto Palmeirim, pois que nada existia quando elle foi nomeado director. O terreno em que foi edificado pertencia á antiga cerca do convento dos Caetanos. As obras do Salão-Theatro duraram muito tempo; só no fim de 17 annos Palmeirim, sustentando grande lucta, conseguiu a sua conclusão. Depois de terminadas as obras, foi também difficil obter o mobiliário. Todos os trabalhos de planta e construccão foram executados pelo fallecído architecto das Obras Publicas, Valentiniano José Correia. A pintura e decoração foram dadas em concurso a Eugenio Cotrim. As pinturas do quadro "central do tecto e dos quatro medalhões, feitas no tecto e não em applicacões, foram dos primeiros trabaalhos do illustre pintor Malhoa. Representa o quadro entral A Fama coroando Euterpe.
Aos pés da figura principal está um papel de musica com as primeiras notas d'uma composição de Marcos Portugal. Os quatro medalhões teem os seguintes retratos: Passos Manuel, fundador do Conservatório; Almeida Garrett, reformador do theatro portuguez; Marcos Portugal (1), Xavier Migone, ínsignes músicos portuguezes.
Estes quatro .nomes foram escolhidos por Palmeirim com voto do conselho do Conservatório.
A obra de talha da tribuna real e misulas que sustentam a galeria foi executada por artistas portuguezes. Por baixo do palco ha uma caixa symphonica, que muito favorece a acustica. Conseguiu-se a edificação do Salão-theatro do Conservatório durante um ministerio presidido por Fontes Pereira de Melo, sendo ministro do reino António Rodrigues Sampaio. Na primeira abertura de aulas, na direcção de Palmeirim, esteve presente o ministro do reino. A solemnidade realisou-se n'um extenso e largo corredor
abobadado, para onde deitam quasi todas as aulas, d'um dos lados ; do outro ha só janellas. O Sampaio, ao terminar a festa, disse para o Palmeirim : «Não é necessário salão para as festas; ha para ellas uma sala característica. A festa a que acabo de assistir, realisou-se dentro de uma flauta!»
Effectivamente o corredor tinha esse aspecto. Foram em seguida ver o terreno e ficou assente que as obras começassem. E começaram, tendo terminado em 1881. A mobília foi adquirida e collocada no seu logar em 1886. Lustres e candieiros não os havia, nem houve até que o actual inspector do Conservatório, Eduardo Schwalbach, com auctorisação superior, cedeu gratuitamente o salão, para concertos e ensaios, á Real Açademia de Amadores de Musica, por espaço de cinco annos, sob condição de essa associação comprar todo o material de illuminação, que, findos os cinco annos, ficará pertencendo ao Conservatório. Assim se fez e d'esta fórma o salão-theatro adquiriu os lustres e candieiros indispensáveis.
O salão foi inaugurado em 25 de agosto de 1892 com um exercício escolar, tendo se antes feito ali a abertura solemne das aulas e um concurso para provimento de professores. O programma dos exercícios foi assim constituído:
1ª parte (pelos alumnos do curso geral):
Ouverture des Marionnettes, de Gurlitt, para piano a 8 mãos, pelas alumnas: A. Gomes, L Martins Costa, J Roque e M. Silva Brito.
Sonatina em Dó maior, de Kuhlan, pela alumna Isolina Roque.
Rondo em Dá maior, de Hurnmel, por Silva Brito, Sonatina em Sol maior, de Beethoven. por E. Duarte de Oliveira. Variações sobre um thema de Paisiello, de Beethoven, por M. Antonja Sampaio. Sonata em Si-bemol, de Clementi, para dois pianos, por Augusta Sampaio e Innocencia Grillo.
Impromptu em Sol maior, de Schubert, por Augusta Sampaio,
Thema e variações, de Schubert, por Christina Mouchet.
Marcha turca, de Mozart, com três pianos, a doze mãos, por Izabel Palmeirim, Julia Reis, Philomena Leone, M. Sant'Anna Pacheco e Estrella Carneiro.
2ª parte—(pelos alumnos do Curso Complementar):
Improvisata sobre uma Gavota Gluk, de Reineeke, por Rosa Rego e Marcos Garin.
Fantasia, de Mendelsohn, por M. Lobo Pimentel.
Solo de Kullak por A. Ayque d'Almeida.
Andante, de Grieg e Mazurka, de Chopin, pela mesma alumna;
Solo, de Henset. e
Melodia hungara, de Listz, por Rosa Rego.
Estudo de Rubinstein e
Rapsodia hungara, de Listz, por Marcos Garin.
Polonaise em lá maior, de Chopin, para dois pianos a oito mãos, por Elisa Torrie, Innocencia Rebello, Lobo Pimentel e Rosa Rego.
A 28 de abril de 1894, estando na direcção interina do conservatório Augusto Machado, realisou-se ali um concerto, a que assistiram o Rei e a Rainha. O programma foi o seguinte:
1ª parte —
Abertura Melusine, de Mendelssohn, pela orchestra.
Polonaise, de Chopin, piano, pelo alumno Marcos Garin.
Quartetto. de Goltremann, violoncellos, pelos alumnos : Maria Lopes Monteiro, Izaura Teixeira de Mello, José Joaquim Correia e José Henrique dos Santos. Ave Maria, de Marchetti, côro pelas alumnas.
Psyché. de Ambroise Thomas, côro pelas alumnas.
— 2.a parte —
Galante aventure, de Guiraud,
intermezzo pela orchestra.
Septuor. de Hummel, por José Vieira, Alagarim, Arroyo, Innocencio Pereira, Del-Negro, Cunha e Silva e Freitas Gazul.
Alleluia da opera Cid. de Massenet, pela alumna Mary Wahnon.
Ave-Maria, da opera Olhello, de Verdi, peia mesma alumna.
Homenagem a Camões, de Cossoul,
marcha pela orchestra.
Esta orchestra que foi formada por alumnos e ex-alumnos do conservatorio, reforçada por um nucleo de artistas distinctos e dirigida por Freitas Gazul, constituiu a parte mais interessante do programma.
Em maio de 1904 entrou Eduardo Schwalbach para o conservatório como director, sendo na reforma nomeado inspector. Desde essa epocha começou a abertura solemne das aulas a ser sempre companhada de uma audição de alumnos.
O rendimento do Salão varia conforme os preços estabelecidos. Tem 380 logares de platéa e 120 de galeria. Tem tribuna para a família real. que ali tem ido muitas vezes.
El-Rei D. Carlos era frequentador assíduo dos concertos.
O Salão é alugado por réis 20$000, por cada concerto, além de luz e porteiros.
O producto total é para subsidio, em partes eguaes, aos alumnos da arte musical e da arte dramática. Os subsídios são distribuídos na abertura das aulas, No anno de 1907 o rendimento do aluguer do salão foi de 700$000 réis. Vae brevemente ser ali collocado um órgão, feito pelo disctinctissimo constructor Augusto Joaquim Claro, de Braga, o que já está auctorisado pelo actual governo, a que preside o sr Ferreira do Amaral.
De “Diccionário do Theatro Portuguez” por Sousa Bastos
Imprensa Libanio da Silva
29, Rua das Gáveas, 31
Lisboa
1908
(1) - Na verdade o retrato pintado por Malhoa é de João Domingos Bomtempo e não Marcos Portugal (outro dos esquecidos deste país).